Aluizio Palmar escapou da morte
na chacina da Estrada do Colono, quando um
grupo da repressão fuzilou cinco guerrilheiros
na chacina da Estrada do Colono, quando um
grupo da repressão fuzilou cinco guerrilheiros
Na noite de 13 de julho de 1974, uma caminhonete Rural
Willys percorria a Estrada do Colono no sentido Capanema/Medianeira. Em
determinado momento, o veículo parou e seus ocupantes desceram. No mesmo
instante, alguns holofotes foram acesos no interior da mata. Fuzis e
metralhadoras foram acionados. As rajadas mataram cinco ocupantes da velha
Rural Willys.
Essa história foi contada, nos mínimos detalhes, pelo
jornalista iguaçuenseAluizio Palmar em seu livro Onde foi que vocês
enterraram nossos mortos?, publicado em 2005. Agora, a história volta à
tona com a revelação do diretor da CIA, William Colby, de que o ex-presidente
Ernesto Geisel ordenou ao general João Batista Figueiredo para continuar
eliminando dissidentes da ditadura, “tomando cuidado para que somente os
subversivos perigosos fossem executados”.
Aluizio Palmar poderia estar entre os cinco militantes que
foram executados na Estrada do Colono, e hoje não estaria vivo para escrever
seu livro, escarafunchar os arquivos da ditadura, criar o site “Documentos
Revelados” e iniciar uma busca incessante pelos corpos dos combatentes da
ditadura fuzilados na Estrada do Colono.
Os guerrilheiros eram Joel José de Carvalho, Daniel de
Carvalho, José Lavecchia, Vitor Carlos Ramos e Ernesto Ruggia. Eles estavam
refugiados na Argentina e foram atraídos para a emboscada fatal. “Eles foram
atraídos pelo ex-sargentoAlberi Vieira dos Santos para serem executados pelos
‘cães de guerra’ do Centro de Inteligência do Exército que, durante a fase
final da Operação Juriti, atraíam exilados políticos para serem mortos no
Brasil”, recorda Aluizio Palmar.
Guerrilheiros atraídos para uma
emboscada foram metralhados
na Estrada do Colono
emboscada foram metralhados
na Estrada do Colono
A cilada deu certo porque Alberi, o agente infiltrado,
ganhara a confiança de Onofre Pinto, um respeitado dirigente da VPR, que na
mesma operação comandada pelo coronel Paulo Malhães foi assassinado após ser
torturado durante dias.
Segundo a testemunha Otávio Rainolfo da Silva, após a morte
dos cinco membros da VPR na cilada montada na Estrada do Colono, Onofre Pinto
foi conduzido para uma casa situada num local de mata a mais ou menos cem
metros da Rodovia 469, em Foz do Iguaçu. Ainda conforme a testemunha, Onofre
teria morrido após receber uma injeção de Shelltox e ter seu corpo jogado no
braço falso do Rio São Francisco, próximo a Santa Helena.
Aluizio Palmar não caiu na emboscada porque desconfiou do sargento
Alberi. Os dois estiveram presos no Ahú, em Curitiba. Palmar sempre dormia com
um olho aberto e passou a desconfiar de que Alberi era um agente disfarçado do
Exército.
Depois que Aluizio Palmar foi libertado em troca do
embaixador suíço, encontrou o sargento Alberi na Argentina, em janeiro de 1974.
Nessa ocasião, Alberi mencionou um audacioso plano de retornar ao Brasil e
iniciar uma guerrilha no Oeste do Paraná. “Ele falou que estava tudo certo para
o retorno, e eu pedi para encontrá-lo mais tarde. Tive a intuição que poderia
ser uma cilada e fui embora de táxi. Anos mais tarde, quando voltei do exílio,
esse grupo não figurava na lista de sobreviventes”, conta Palmar.
Depois de anos de pesquisa e dezenas de pista falsas,
Aluizio Palmar chegou perto da verdade quando foram abertos os arquivos da
Polícia Federal para a Comissão de Mortos e Desaparecidos. Palmar foi
credenciado e fez um trabalho incansável. Descobriu que o motorista da Rural
Willys era, na verdade, o agente infiltrado Otávio Rainolfo da Silva. Mais
tarde, Rainolfo confessou sua participação e revelou detalhes da emboscada.
Em depoimento à Comissão da Verdade, em 2013, Otávio
Rainolfo relatou como ocorreu o assassinato dos cinco guerrilheiros. “De
repente, as luzes acenderam e deu um tiroteio. Praticamente acabou com todo
mundo. Se eu não me deito, tinha morrido também.” A luz era a senha para que os
infiltrados se protegessem no instante em que os outros militares começassem a
atirar contra os guerrilheiros.
Cinco dos seis guerrilheiros atraídos para uma emboscada
foram metralhados na Estrada do Colono
“Documentos Revelados”
Aluizio Palmar ajudou a fundar o Movimento Revolucionário 8
de Outubro (MR8), em homenagem ao dia da captura de Che Guevara. Depois de três
anos de luta contra a ditadura, foi obrigado a entrar na clandestinidade.
Enviado para Foz do Iguaçu em 1967 com a missão de
estruturar bases do MR8 na região, acabou preso em Cascavel dois anos depois. A
partir dali, conheceria todos os tipos de tortura: afogamento, pau de arara, telefone,
choque elétrico.
Aluizio foi condenado a seis anos de prisão e encarcerado no
presídio da Ilha Grande, no Rio. Saiu de lá ao lado de outros 69 presos
políticos trocados pelo embaixador da Suíça Giovanni Bucher, que havia sido
sequestrado por guerrilheiros.
Viveu exilado no Chile e na Argentina até retornar ao Brasil
no momento em que os militares brasileiros já negociavam a elaboração da Lei da
Anistia.
Em Foz ele fundou o jornal Nosso Tempo, junto
com Adelino de Souza e Juvêncio Mazzarollo. Continua militando nos movimentos
sociais e se dedica a um importante site,”Documentos Revelados”,
com mais de 80 mil arquivos. É presidente do Centro de Direitos Humanos e
Memória Popular de Foz do Iguaçu e membro do Comitê de Acompanhamento da
Sociedade Civil junto à Comissão Nacional de Anistia.
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